← Voltar ao blog 25 de julho de 2026 · 8 min de leitura

Mercado Imobiliário em Portugal: Entrevista com Sónia Belo

O mercado imobiliário em Portugal tem atravessado mudanças profundas nos últimos anos, levantando dúvidas sobre acessibilidade, investimento e sustentabilidade dos preços. Para perceber melhor o que está a acontecer “no terreno”, falei com Sónia Belo, CEO do Grupo Belo (imobiliária e crédito) que partilha uma visão prática, direta e sem filtros sobre o presente e o futuro da habitação em Portugal.

Retrato em plano médio de uma mulher com cabelo loiro ondulado, vestida com um casaco de camurça verde-oliva aberto, uma blusa preta justa e calças de ganga cinzentas. Ela olha diretamente para a câmara com uma expressão séria e focada. O fundo mostra a arquitetura de um edifício moderno com tons escuros, colunas e varandas desfocadas, criando um ambiente urbano e corporativo contemporâneo.
📑 Índice:


O estado atual do mercado imobiliário em Portugal

O mercado imobiliário português é hoje frequentemente descrito como “tenso”, “caro” ou “inacessível”. Mas será uma bolha prestes a rebentar ou uma nova realidade estrutural?

Teresa Silva: Como descreve o momento atual do mercado imobiliário em Portugal? Estamos numa bolha ou numa nova realidade?

Sónia Belo: Acho que é uma nova realidade. Bolha tem aquela ideia de que rebenta, e eu não vejo isso a acontecer. O que vejo é um mercado que mudou, e que ainda não temos resposta para essa mudança. Não é culpa de ninguém em particular, é um conjunto de coisas que se foram acumulando. E agora temos de lidar com isso.


Quem consegue comprar casa em Portugal hoje?

A acessibilidade à habitação é uma das maiores preocupações atuais. O perfil de comprador mudou e as dificuldades aumentaram.

Teresa Silva: Na prática, quem são hoje as pessoas que ainda conseguem comprar casa em Portugal?

Sónia Belo: Quem tem rendimentos acima da média, ou quem tem apoio familiar. Digo isto sem julgamento, porque é simplesmente o que eu vejo no meu dia a dia. A pessoa que chega sozinha, com o seu salário, sem qualquer suporte externo, está a ter cada vez mais dificuldade. E isso preocupa-me genuinamente.

Imagem com fundo branco dividida em duas partes. Do lado esquerdo, destaca-se um símbolo de aspas cor-de-rosa seguido do texto em letras pretas: "Acho que é uma nova realidade. Bolha tem aquela ideia de que rebenta, e eu não vejo isso a acontecer." Abaixo da citação, o nome "Sónia Belo" está escrito a cor-de-rosa e o cargo "CEO do Grupo Belo" em preto. Do lado direito, uma moldura circular exibe a fotografia de uma mulher loira, com um vestido longo de renda clara, cinto largo, casaco de pele castanho e uma mala na mão, posando num escritório moderno com detalhes em madeira.

O novo perfil do comprador de casa

Hoje, comprar casa é um processo muito mais informado, mas também mais emocionalmente pressionado.

Teresa Silva: O que mudou, nos últimos 10 anos, no perfil do comprador?

Sónia Belo:  As pessoas chegam muito mais informadas do que antes. Pesquisam, comparam, questionam. Isso é ótimo. Mas chegam também mais ansiosas, com aquela pressão de “se não for agora, nunca mais consigo”. E essa ansiedade às vezes leva a decisões precipitadas que depois custam caro.


Comprar casa ainda faz sentido como investimento?

Durante décadas, a habitação própria foi vista como o principal caminho para construir património. Hoje, essa ideia continua válida?

Teresa Silva: Durante décadas, comprar casa foi visto como a principal forma de construir património. Isso ainda faz sentido hoje?

Sónia Belo: Faz, mas não para toda a gente e não em qualquer momento. Comprar casa continua a ser uma das formas mais sólidas de construir algo ao longo do tempo, no final o imóvel é seu. O problema é que o caminho para lá chegar ficou muito mais exigente. Para quem tem condições de entrar hoje, faz sentido. Para quem não tem, forçar a decisão pode ser um erro.


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O impacto financeiro e emocional da compra de casa

Comprar casa não é apenas uma decisão financeira, tem um impacto direto na estabilidade emocional das famílias.

Teresa Silva: Que impacto isto tem na saúde financeira e emocional das pessoas?

Sónia Belo: É grande. Vejo muita gente a comprometer-se no limite do que aguenta, com medo de ficar de fora do mercado. E quando aparece algum imprevisto, e ele sempre aparece, a casa que devia ser um lar torna-se num peso. A saúde financeira e a emocional estão muito ligadas. O meu trabalho também passa por ajudar as pessoas a perceber se estão mesmo prontas para este passo.

Imagem com fundo branco apresentando uma citação à esquerda e um retrato à direita. Do lado esquerdo, sob um grande símbolo de aspas cor-de-rosa, lê-se o texto em letras pretas: "A casa que devia ser um lar torna-se num peso." Logo abaixo, surge o nome "Sónia Belo" em cor-de-rosa e o cargo "CEO do Grupo Belo" em preto. Do lado direito, uma moldura circular mostra o retrato de uma mulher loira com uma mão no cabelo, vestida com um casaco de camurça verde-oliva e blusa preta, num ambiente exterior desfocado.

O problema da falta de construção nova em Portugal

A escassez de oferta é um dos fatores mais apontados para a subida dos preços da habitação.

Teresa Silva: O que está a travar o crescimento da construção nova?

Sónia Belo: Os licenciamentos são muito lentos, os custos de construção subiram muito, e os terrenos disponíveis nas zonas onde a procura é maior são escassos. É uma equação difícil de resolver. Os promotores não conseguem construir de forma viável para o segmento que mais precisa, e isso fecha um ciclo que prejudica toda a gente.


Como aumentar a oferta de habitação?

Se o problema é a falta de casas, quais podem ser as soluções estruturais?

Teresa Silva: Que medidas poderiam incentivar uma maior oferta de habitação?

Sónia Belo: Simplificar e acelerar os licenciamentos seria o passo mais imediato. Depois, benefícios fiscais para construção de habitação acessível e mais parcerias público-privadas. E apostar a sério no arrendamento, porque nem toda a gente quer ou deve comprar, e um mercado de arrendamento saudável aliviaria muita pressão.


Reabilitação urbana: solução ou apenas parte da solução?

A reabilitação tem sido uma aposta forte nas cidades, mas será suficiente?

Teresa Silva: A reabilitação urbana é suficiente para responder às necessidades atuais?

Sónia Belo: Não, por si só não chega. A reabilitação tem valor, claro, é importante para as cidades e para o património. Mas o que se reabilita acaba quase sempre no segmento médio-alto, o que não resolve o problema de quem tem um rendimento normal e quer comprar casa para viver.


O impacto dos investidores estrangeiros no mercado imobiliário

O investimento estrangeiro é frequentemente apontado como motor de crescimento, mas também de pressão sobre os preços.

Teresa Silva: Qual tem sido o impacto dos investidores estrangeiros no mercado português?

Sónia Belo: Tem dois lados, e eu tento ser honesta sobre isso. Trouxeram investimento e dinamizaram zonas que precisavam. Mas também competiram diretamente com as famílias portuguesas em bairros que eram delas, e contribuíram para subir os preços. Não há vilões nesta história, mas há consequências reais que não podemos ignorar.

Imagem com fundo branco dividida em duas secções. Do lado esquerdo, sob um grande símbolo de aspas cor-de-rosa, encontra-se o texto em letras pretas: "Não decidam com base no que fazem os outros. Decidam com base na vossa situação real, nos números, na estabilidade e no projeto de vida." Abaixo da citação, o nome "Sónia Belo" surge em cor-de-rosa e o cargo "CEO do Grupo Belo" em preto. Do lado direito, uma moldura circular exibe a fotografia em plano médio de uma mulher loira, apoiando o queixo na mão e vestindo um casaco de pele castanho sobre uma blusa de renda clara.

Portugal continua atrativo para investimento internacional?

Mesmo com preços elevados, Portugal continua a ser um destino procurado por investidores.

Teresa Silva: Portugal continua a ser um mercado atrativo para investimento internacional?

Sónia Belo: Continua, sem dúvida. Clima, segurança, qualidade de vida, estabilidade... temos muita coisa que outros países não têm. E isso reflete-se na procura que continua a vir de fora.


O futuro do mercado imobiliário em Portugal

O que podemos esperar para os próximos anos num mercado tão pressionado?

Teresa Silva: O que podemos esperar do mercado imobiliário em Portugal nos próximos 5 a 10 anos?

Sónia Belo: Acho que os preços vão continuar a subir, mas de forma mais moderada. O que mais me preocupa é a exclusão dos jovens. Se não houver uma resposta estrutural, vamos ter uma geração inteira sem acesso à habitação própria.


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Indicadores a acompanhar no mercado imobiliário

Perceber o mercado exige atenção a vários fatores económicos e políticos.

Teresa Silva: Que sinais devem as pessoas acompanhar para perceberem o rumo do mercado?

Sónia Belo: A Euribor é o mais imediato, mexe diretamente na prestação. Depois, os licenciamentos de construção nova, as taxas de desemprego e o que o governo vai fazendo em termos de política de habitação. Não existe um indicador único.


Erros mais comuns na compra de casa

Muitos compradores entram no processo sem preparação financeira suficiente.

Teresa Silva: Que erros mais comuns veem as pessoas cometer quando compram casa?

Sónia Belo: Comprar no limite máximo do que o banco aprova, sem pensar no que sobra para viver. E não contar com os custos da compra em si, como IMT, imposto de selo e escritura, que podem chegar a 6% ou 7% do valor do imóvel.

Imagem com fundo branco apresentando uma citação à esquerda e um retrato à direita. Do lado esquerdo, sob um grande símbolo de aspas cor-de-rosa, lê-se o texto em letras pretas: "As pessoas chegam muito mais informadas do que antes. Pesquisam, comparam, questionam. Isso é ótimo. Mas chegam também mais ansiosas". Logo abaixo, surge o nome "Sónia Belo" em cor-de-rosa e o cargo "CEO do Grupo Belo" em preto. Do lado direito, uma moldura circular mostra o retrato de uma mulher loira de três quartos, vestida com um casaco de camurça verde-oliva, blusa preta e calças de ganga cinzentas, segurando uma mala, num ambiente exterior desfocado.

Teresa Silva: O que deve mesmo ser tido em conta antes de avançar para um crédito à habitação?

Sónia Belo: A taxa de esforço, a estabilidade profissional, ter uma poupança de emergência e comparar propostas de vários bancos. Esses quatro pontos fazem uma diferença enorme.


Comprar ou arrendar casa: como decidir?

Não existe uma resposta única, tudo depende da realidade de cada pessoa.

Teresa Silva: Para quem está indeciso entre comprar ou arrendar: como tomar essa decisão?

Sónia Belo: Não decidam com base no que fazem os outros. Decidam com base na vossa situação real, nos números, na estabilidade e no projeto de vida. Não há resposta certa universal. Há a resposta certa para cada pessoa, naquele momento da vida.


Conclusão: o futuro da habitação em Portugal

O mercado imobiliário em Portugal está a atravessar uma fase de transformação profunda, onde o acesso à habitação se tornou um dos maiores desafios sociais do país.

Como destaca a Sónia Belo, o problema não é apenas económico, mas também estrutural e humano, afetando decisões de vida, estabilidade emocional e o futuro das novas gerações.

Apesar dos desafios, existem caminhos possíveis através de políticas de habitação mais eficazes, maior aposta no arrendamento e uma maior literacia financeira na hora de comprar casa.


Para saber mais sobre o trabalho da Sónia Belo e os projetos que lidera, podes visitar a Casa Belo:

Casa Belo

E seguir a Sónia nas redes sociais (Instagram):

@soniabelo_ (perfil profissional associado ao seu trabalho no setor imobiliário e crédito habitação)


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