As estrelas que me ensinaram a amar
Há histórias que não pedem autorização para ficar connosco.
Acontecem, passam (ou achamos que passam), e depois instalam-se num canto silencioso da memória, reaparecendo sempre que o céu está limpo, a noite é fria ou o coração precisa de um ponto de referência.
Todos nós temos pelo menos uma história assim. Um amor adolescente. Uma noite específica. Um momento que não mudou o mundo, mas mudou-nos a nós.
Esta é uma dessas histórias.
E sim, é real.
Não é sobre um “amor da vida”. É sobre aquele amor que nos ensina, mesmo sem ficar. Aquele que acontece cedo demais, quando ainda estamos a aprender quem somos, mas tarde o suficiente para deixar marca.
Tinha cerca de 16 anos quando me apaixonei pela primeira vez.
Daquela forma intensa, quase dolorosa, que só os adolescentes conseguem sentir, quando tudo parece definitivo e absolutamente urgente.
A noite em que tudo começou
Era a festa de Carnaval na escola. Daquelas festas míticas em que a escola ficava aberta à noite e nos dava a ilusão de sermos rebeldes… pelo menos durante algumas horas.
Eu, a Bestie e mais uma amiga tínhamos comprado os nossos bilhetes com antecedência e estávamos em puro êxtase. Para ajudar à festa, sentia-me fabulosa na minha fantasia super sexy de cowgirl. Sentia-me confiante, bonita, invencível, aquela combinação rara que só acontece quando temos 16 anos e ainda não fomos suficientemente magoadas pela vida.
O destino, no entanto, decidiu meter-se no caminho.
Outra amiga nossa, que não estudava naquela escola, e o rapaz por quem eu estava apaixonada apareceram também nessa noite. A ideia era simples: estariam a vender mais bilhetes à entrada e juntavam-se a nós. O problema?
Bilhetes esgotados.
De repente, éramos cinco pessoas e apenas três bilhetes.
Matemática simples. Duas pessoas ficariam de fora.
A nossa amiga queria muito entrar. Eu sentia-me responsável por convidar aquele rapaz. E, sem grande dramatização, como só aos 16 anos conseguimos fazer decisões que aos 30 pareceriam impossíveis, decidi dar o meu bilhete à amiga.
Fiquei cá fora com ele.
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O frio, a noite e a escolha
Era fevereiro. A noite estava fria. A festa iria durar, pelo menos, duas ou três horas. Entreguei os meus acessórios de cowgirl à minha amiga, sorri como se estivesse tudo bem, e decidimos ir tomar um café.
Não queríamos, obviamente, ir para um sítio perto da escola. A última coisa que desejávamos era encontrar algum adulto conhecido e explicar porque estávamos fora da festa. Por isso, começámos a caminhar.
E foi nesse caminho que tudo aconteceu.
Conversámos. Sem pressas. Sem máscaras.
Abordámos coisas banais e de outras nem tanto. Descobri-o para lá dos corredores da escola, para lá dos olhares trocados à distância e das conversas rápidas entre aulas.
Apesar do frio, a noite estava bonita. Caminhar ajudava a afastar a sensação de gelo nos dedos. E, subitamente, reparei que o céu estava limpo, profundamente estrelado.
Foi então que ele me disse que, muitas vezes, passava horas a olhar para as estrelas.
Fitei-o com curiosidade. Não era algo que eu fizesse. Percebendo a minha surpresa, parámos a meio do caminho. Ele apontou para o céu e mostrou-me três estrelas que brilhavam lado a lado. Disse-me que, sempre que se sentia perdido, olhava para elas.
Juntas, com outras estrelas dispostas na vertical, lembravam-lhe um alvo. Um ponto de referência.
As três estrelas
Não sou, nem nunca fui, uma pessoa que se deixe guiar pelas estrelas. Mas, naquele momento, percebi exatamente o que ele queria dizer.
Aquelas estrelas não eram sobre astronomia.
Eram sobre orientação. Sobre regresso. Sobre lembrar-se de quem era quando tudo parecia confuso.
Percebi também outra coisa, mais difícil de aceitar: se aos 16 anos alguém precisa de um ponto de referência para sentir que tem de regressar à sua vida e aos seus sonhos, então alguma coisa nessa vida não está fácil.
Enquanto pensava nisto, ele reparou que eu o fitava em silêncio. Envergonhada, perguntei se sabia o nome daquelas estrelas.
Não sabia.
E foi ali, naquela rua fria, a meio de caminho para um café qualquer, que decidimos batizá-las de
“Tu, Aquela e a Outra”.
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O tempo faz o que sabe fazer
Passaram-se 20 anos.
Hoje sei que aquelas três estrelas alinhadas se chamam As Três Marias. Sei-o porque cresci, porque aprendi, porque a vida se encarregou de ensinar-me nomes, conceitos e despedidas.
Mas, desde essa noite, sempre que fito o céu, procuro aquele "alvo". A minha referência.
Não para reviver o que foi.
Mas para lembrar-me de que fomos felizes. Mesmo que por pouco tempo. Mesmo que as nossas vidas não se tenham cruzado como achávamos que iriam.
E está tudo bem.
Porque sei que, em algum lugar, em algum momento, ele também vai olhar para as estrelas. E lembrar-se daquela noite.
Conclusão
Esta história é real.
Não tem final romântico nem promessas cumpridas. Tem apenas memória, significado e aceitação.
Há amores que não ficam, mas ensinam.
Há momentos que não se repetem, mas orientam.
E talvez seja isso que algumas pessoas vêm fazer às nossas vidas: serem estrelas de referência. Não para nos guiar para sempre, mas para nos lembrar de quem somos quando tudo parece incerto.
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Porque, no fundo, todos nós precisamos de um alvo no céu.
Mesmo que só o encontremos de vez em quando.
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