Cláudia Almeida: Sustentabilidade e Consumo Consciente
A sustentabilidade está cada vez mais presente nas nossas escolhas e na forma como pensamos o consumo. Foi precisamente desta preocupação que nasceu a Murta Atitude Natural, um projeto criado em 2020 para disponibilizar informação sobre sustentabilidade e produtos naturais, sustentáveis e, na sua maioria, nacionais.
À frente da Murta está Cláudia Almeida, fundadora e gerente da empresa, formada pela Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto. A sua ligação às questões ambientais começou ainda durante os estudos e acabou por dar origem a um projeto empresarial dedicado ao consumo consciente.
Nesta entrevista, falamos sobre sustentabilidade, produtos nacionais, consumo consciente, greenwashing e sobre como pequenas mudanças podem transformar a nossa relação com o ambiente.
Como nasceu a Murta?
A história da Murta começou com uma procura pessoal por alternativas mais sustentáveis e com a perceção de que existia uma lacuna na oferta nacional e europeia.
Teresa Silva: Como nasceu a Murta e em que momento perceberam que a sustentabilidade seria o centro do projeto?
Cláudia Almeida: Desde o início. A Murta nasceu precisame
nte de uma procura, a nível particular, de opções sustentáveis para a rotina pessoal e familiar e da perceção de que existia ainda uma grande falha na oferta de artigos nacionais e europeus.
Para uso pessoal, comecei a reunir uma lista de nomes de fabricantes e distribuidores com os quais queria realizar encomendas, e rapidamente percebi que essa lista era diferente de todas as lojas que tinha consultado e poderia dar origem a um negócio por si só.
Daí até realizar os primeiros contactos e criar a empresa foram apenas alguns meses, já lá vão 6 anos.
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Teresa Silva: Houve algum acontecimento ou experiência pessoal que mudou a vossa forma de olhar para o consumo?
Cláudia Almeida: Pessoalmente sempre tive muita preocupação com o ambiente, desde o secundário que a ecologia foi uma das matérias que mais interesse me despertava na escola.
No ensino superior a minha licenciatura em Saúde Ambiental permitiu-me aprender ainda mais sobre o nosso impacto neste planeta e, à medida que aprendia, ia tentando colocar em prática as melhorias possíveis em cada fase da minha vida.
A aprendizagem sobre o consumo e pegada ecológica individual e familiar é constante, e tento que se reflita nos produtos disponibilizados na Loja e no conhecimento que partilhamos no Blog.
Sustentabilidade: mitos e mudanças de hábitos
Uma das ideias que a Murta procura combater é a de que viver de forma sustentável tem obrigatoriamente de ser mais complicado.
Teresa Silva: Existe algum mito sobre a sustentabilidade que gostasse de desconstruir?
Cláudia Almeida: Esforçamo-nos diariamente para demonstrar que uma rotina sustentável não é mais complicada do que uma rotina com maior pegada ecológica.
É verdade que existem alguns momentos ou tarefas que poderão implicar um pouco mais de intervenção. Podemos utilizar o seguinte exemplo: se substituir discos e toalhitas descartáveis por opções reutilizáveis vai ter que os lavar, o que adiciona uma tarefa em substituição do descarte.
Mas, na realidade, a seguir ao descarte vem a recolha e a deposição do nosso lixo em aterro ou tratamento. Tarefas essas que passaram a ser substituídas por uma lavagem e secagem, e essas toalhitas estão prontas a usar de novo durante pelo menos 2 anos.
Consideramos que é uma questão de perspetiva e de experimentação com intenção. Se experimentarem cumprir uma nova rotina durante 2 a 3 meses com verdadeira intenção de fazerem com que resulte, é quase certo que encontrarão uma forma de a fazer funcionar.
Então, porque não poupar a saúde, o ambiente e a carteira com pequenos gestos diários?
Como escolher produtos sustentáveis?
A escolha dos produtos da Murta envolve vários critérios, desde os materiais e embalagens até à origem e ao processo de fabrico.
Teresa Silva: Que critérios utilizam para selecionar os produtos que chegam à loja?
Cláudia Almeida: Antes de serem adicionados ao catálogo da Loja todos os produtos são analisados quanto à sua composição, embalagem, tipologia e proveniência de fabrico.
É sempre dada prioridade a ingredientes ou materiais naturais, biodegradáveis, compostáveis e reutilizáveis ou, na sua ausência ou por questões de usabilidade, a materiais recicláveis.
Sobre o fabrico a preferência é sempre o nacional e artesanal, pois em pequena escala existe uma menor pegada e uma maior preocupação com o impacto da produção. No caso dos fabricantes de maior dimensão, apenas escolhemos produtos que apresentam certificação e/ou verdadeira vantagem ambiental e económica associada ao seu uso.
Todos os critérios são analisados em simultâneo e estudados os prós e contras da sua introdução no catálogo. Adicionalmente os fornecedores e todos os produtos são analisados, pelo menos uma vez por ano, para verificar que ainda mantêm as práticas e os mesmos critérios que nos levaram a adicioná-los à Loja.
Teresa Silva: Como garante que as marcas com quem trabalha partilham realmente os mesmos valores?
Cláudia Almeida: A preocupação com a sustentabilidade está presente desde a raiz, na grande maioria dos nossos parceiros.
Trabalhamos em conjunto para os mesmos objetivos: estimular a economia nacional, principalmente de pequenos negócios, sempre com o máximo respeito pelo meio ambiente.
Adicionalmente existe uma comunicação constante com os parceiros. Se verificarmos que a marca se encaminha para um caminho que não é o da Murta ou que, de alguma forma, alterou o seu curso, o nosso caminho juntos termina nesse momento. Já aconteceu.
Um dos parceiros com os quais começamos este projeto direcionou-se para o mercado de luxo, e assim que nos apercebemos dessa mudança, terminamos a parceria.
Não temos nada contra esse segmento de mercado, apenas não corresponde à nossa missão como empresa.
Consumidores e sustentabilidade
Informação e confiança são fundamentais quando falamos de consumo sustentável, sobretudo num negócio que funciona online.
Teresa Silva: Sente que os consumidores estão hoje mais informados ou ainda existe muito trabalho de sensibilização?
Cláudia Almeida: Ambos. Os consumidores estão mais informados, o que é muito positivo, mas tal não significa que saibam tudo, que compreendam verdadeiramente tudo, e que não tragam consigo preconceitos de outros produtos semelhantes que experimentaram.
É por isso que nas descrições dos produtos da Loja e nas partilhas do Blog, fazemos questão de incluir todas as informações atualizadas e o mais descritivas possível.
O mesmo se aplica com os vídeos que criamos para as redes sociais, de modo a dar a conhecer a perspetiva de utilização dos produtos e desmistificar ideias preconcebidas.
Teresa Silva: Quais são as dúvidas ou receios mais frequentes de quem entra pela primeira vez na Murta?
Cláudia Almeida: Como em qualquer outra loja presente unicamente online, os principais receios deparam-se com o processo de compra em si e se a encomenda vai de facto ser entregue.
É necessário criar uma ligação com o cliente que se torna mais distante com as compras neste formato não presencial.
Todo o processo de encomenda na Loja é automatizado, ou seja, o cliente recebe sempre notificações a cada passo concretizado. No entanto, com as fraudes digitais a aumentar, é apenas natural que os clientes fiquem preocupados e ansiosos com o investimento do seu dinheiro.
Para colmatar esta situação estamos sempre disponíveis das 9h às 19h, dias úteis, sábados e domingos, para esclarecer qualquer dúvida que tenha surgido com os produtos, a plataforma, o processo de encomenda ou mesmo o de envio.
Desta forma acreditamos conseguir reduzir um pouco a distância entre loja-cliente e criar uma relação de presença e confiança.
Os desafios de gerir um negócio sustentável em Portugal
Mesmo com uma preocupação constante em reduzir o impacto ambiental, existem áreas que dependem de fatores externos.
Teresa Silva: Quais são os maiores desafios de gerir um negócio sustentável em Portugal?
Cláudia Almeida: Gerir um negócio sustentável online é complexo, pois envolve algumas variáveis que não conseguimos bem controlar, apenas colmatar o melhor possível.
Podemos usar o exemplo dos envios. Para que as encomendas cheguem ao cliente, é necessário que a transportadora os entregue, o que implica uma pegada ecológica associada à distribuição.
Para este serviço escolhemos desde o início os CTT Expresso, pois consideramos ser a empresa com a rede mais bem estabelecida no país e, consequentemente, com as rotas mais otimizadas, poupando-se assim deslocações individualizadas.
Como todos os negócios, a mudança está nos detalhes. O principal exemplo pode ser o do embalamento, que é totalmente reutilizado. Atualmente não fazemos qualquer compra de enchimento ou caixas, reutilizamos totalmente o que enviam para nós, para reenviar para o cliente, sempre que se encontre nas condições adequadas.
Greenwashing e transparência
Com consumidores mais atentos, as empresas enfrentam também maiores exigências relativamente à forma como comunicam as suas práticas ambientais.
Teresa Silva: Sente que as empresas estão realmente a mudar ou ainda existe muito "greenwashing"?
Cláudia Almeida: As empresas estão a mudar, mas existe também cada vez mais greenwashing, pois o consumidor também mudou.
O consumidor está mais exigente e mais atento e isso provoca mudança nas empresas, contudo existem sempre as marcas que optam por tentar enganar o consumidor com uma imagem de sustentabilidade quando, na verdade, não é isso que se passa, é apenas marketing.
Neste tema considero verdadeiramente que os consumidores devem queixar-se às entidades competentes quando se apercebem de que foram enganados, e essas mesmas entidades devem estar mais atentas à comunicação utilizada por essas marcas.
Na Murta não somos perfeitos, mas não colocamos em prática nenhuma campanha com o objetivo de fazer as pessoas comprar um artigo por algo que ele não é.
Comunicamos claramente o que o artigo é, de que é feito, como funciona, de onde vem e como se reutiliza ou descarta no seu fim de vida. Apostamos na transparência total, pois acreditamos que apenas assim se consegue uma relação de confiança com o cliente.
O futuro do consumo sustentável
Para a Cláudia, o futuro passa por um consumo mais consciente, realista e próximo da produção local.
Teresa Silva: Como imagina o consumo sustentável daqui a dez anos?
Cláudia Almeida: Imagino um consumo consciente, ou seja, um consumo realista, adequado às verdadeiras necessidades de cada um e de cada família, e não adequado às expectativas criadas e impostas por uma sociedade voltada para o lucro.
Imagino que este consumo consciente não seja apenas refletido na quantidade e no que compramos, mas também a quem compramos, sendo dada uma clara preferência pelo consumo local e nacional.
Se aos poucos todos formos reduzindo o que compramos desnecessariamente, tendo atenção verdadeira ao que trazemos connosco, reduzindo poluentes, químicos e artigos que não têm destino óbvio a não ser o aterro, acredito que este consumo pode tornar-se real.
Teresa Silva: O que gostaria que mudasse na forma como consumimos?
Claudia Almeida: Gostaria que todos tivessem a coragem e a disponibilidade para experimentar.
Não devemos dizer que não funciona, ou que não é bom ou não serve sem experimentar. E isto aplica-se claramente ao consumo.
Lá porque compramos e consumimos toda a vida daquela marca, não quer dizer que outras não sejam funcionais da mesma forma, ou até melhores.
Se tomarmos a iniciativa de experimentar uma marca nacional sustentável, dando verdadeiramente tempo para avaliar se funciona ou não, estamos a ganhar experiência de utilização, a impulsionar pequenos negócios e a começar a transformar a nossa rotina, para melhor.
Com o impulsionar dos pequenos negócios e artesãos, contribuímos para melhorar a economia nacional e para que conhecimentos únicos, e por vezes geracionais, não fiquem esquecidos no tempo.
Como começar a viver de forma mais sustentável?
A mudança não precisa de acontecer de um dia para o outro. Começar devagar pode ser a melhor forma de criar hábitos duradouros.
Teresa Silva: Se pudessem deixar apenas uma mensagem a quem quer começar a viver de forma mais sustentável, qual seria?
Cláudia Almeida: Comecem aos poucos. Não pretendam mudar toda a rotina de uma só vez ou sem preparação, ou vão acabar por desistir sem concluir a missão.
A mudança é sempre possível e pode ser simples, mas deve ser levada com calma, por passos.
Desta forma é dado o devido tempo para que as rotinas assentem e se integrem verdadeiramente no dia-a-dia. Assim que tal acontecer, então adicionem uma nova prática.
Pode parecer que pequenos passos não têm impacto, mas têm. Todas as decisões importam, pois têm efeito cumulativo, acumulam-se umas às outras e com as restantes decisões de todos os que percorrem este mesmo planeta que nós.
E quando, juntos, nos dedicamos a uma missão, conseguimos alcançá-la.
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Pequenas escolhas podem gerar grandes mudanças
Ao longo da entrevista, Cláudia Almeida reforça uma ideia essencial: viver de forma mais sustentável não significa mudar tudo de uma vez.
A sustentabilidade pode começar com pequenas escolhas, com a vontade de experimentar alternativas, com a procura de informação e com uma maior atenção ao que compramos.
A história da Murta demonstra também como uma necessidade pessoal pode transformar-se num projeto dedicado a promover produtos sustentáveis, apoiar pequenos negócios e incentivar um consumo mais consciente.
Como resume a Cláudia: “todas as decisões importam”. E são precisamente essas pequenas decisões, acumuladas ao longo do tempo, que podem contribuir para uma mudança maior.
Conheçam mais dicas de sustentabilidade no blog da Murta, e façam as vossas compras conscientes no site.
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