← Voltar ao blog 24 de outubro de 2026 · 11 min de leitura

Cláudia Almeida: Sustentabilidade e Consumo Consciente

A sustentabilidade está cada vez mais presente nas nossas escolhas e na forma como pensamos o consumo. Foi precisamente desta preocupação que nasceu a Murta Atitude Natural, um projeto criado em 2020 para disponibilizar informação sobre sustentabilidade e produtos naturais, sustentáveis e, na sua maioria, nacionais.

À frente da Murta está Cláudia Almeida, fundadora e gerente da empresa, formada pela Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto. A sua ligação às questões ambientais começou ainda durante os estudos e acabou por dar origem a um projeto empresarial dedicado ao consumo consciente.

Nesta entrevista, falamos sobre sustentabilidade, produtos nacionais, consumo consciente, greenwashing e sobre como pequenas mudanças podem transformar a nossa relação com o ambiente.

Retrato em plano médio de Cláudia Almeida, com cabelo escuro e liso, a olhar diretamente para a câmara com um subtil sorriso. A luz do sol incide lateralmente sobre o seu cabelo e rosto, criando riscas de luz e sombra. Veste uma camisola vermelha e, ao fundo, surgem silhuetas desfocadas de outras pessoas.


Como nasceu a Murta?

A história da Murta começou com uma procura pessoal por alternativas mais sustentáveis e com a perceção de que existia uma lacuna na oferta nacional e europeia.

Teresa Silva: Como nasceu a Murta e em que momento perceberam que a sustentabilidade seria o centro do projeto?

Cláudia Almeida: Desde o início. A Murta nasceu precisame
nte de uma procura, a nível particular, de opções sustentáveis para a rotina pessoal e familiar e da perceção de que existia ainda uma grande falha na oferta de artigos nacionais e europeus.

Para uso pessoal, comecei a reunir uma lista de nomes de fabricantes e distribuidores com os quais queria realizar encomendas, e rapidamente percebi que essa lista era diferente de todas as lojas que tinha consultado e poderia dar origem a um negócio por si só.

Daí até realizar os primeiros contactos e criar a empresa foram apenas alguns meses, já lá vão 6 anos.


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Teresa Silva: Houve algum acontecimento ou experiência pessoal que mudou a vossa forma de olhar para o consumo?

Cláudia Almeida: Pessoalmente sempre tive muita preocupação com o ambiente, desde o secundário que a ecologia foi uma das matérias que mais interesse me despertava na escola.

No ensino superior a minha licenciatura em Saúde Ambiental permitiu-me aprender ainda mais sobre o nosso impacto neste planeta e, à medida que aprendia, ia tentando colocar em prática as melhorias possíveis em cada fase da minha vida.

A aprendizagem sobre o consumo e pegada ecológica individual e familiar é constante, e tento que se reflita nos produtos disponibilizados na Loja e no conhecimento que partilhamos no Blog.


Sustentabilidade: mitos e mudanças de hábitos

Uma das ideias que a Murta procura combater é a de que viver de forma sustentável tem obrigatoriamente de ser mais complicado.

Teresa Silva: Existe algum mito sobre a sustentabilidade que gostasse de desconstruir?

Cláudia Almeida: Esforçamo-nos diariamente para demonstrar que uma rotina sustentável não é mais complicada do que uma rotina com maior pegada ecológica.

É verdade que existem alguns momentos ou tarefas que poderão implicar um pouco mais de intervenção. Podemos utilizar o seguinte exemplo: se substituir discos e toalhitas descartáveis por opções reutilizáveis vai ter que os lavar, o que adiciona uma tarefa em substituição do descarte.

Mas, na realidade, a seguir ao descarte vem a recolha e a deposição do nosso lixo em aterro ou tratamento. Tarefas essas que passaram a ser substituídas por uma lavagem e secagem, e essas toalhitas estão prontas a usar de novo durante pelo menos 2 anos.

Consideramos que é uma questão de perspetiva e de experimentação com intenção. Se experimentarem cumprir uma nova rotina durante 2 a 3 meses com verdadeira intenção de fazerem com que resulte, é quase certo que encontrarão uma forma de a fazer funcionar.

Então, porque não poupar a saúde, o ambiente e a carteira com pequenos gestos diários?

Imagem com citação de Cláudia Almeida, Gerente na Murta Atitude Natural. Do lado esquerdo, sobre fundo branco com aspas decorativas cor-de-laranja, lê-se o texto: "Uma rotina sustentável não é mais complicada do que uma rotina com maior pegada ecológica." No canto inferior esquerdo aparecem o seu nome e cargo. Do lado direito, dentro de uma moldura circular, vê-se a Cláudia Almeida de cabelo comprido e blusa azul, a olhar para baixo enquanto segura flores roxas junto a uma caixa aberta.

Como escolher produtos sustentáveis?

A escolha dos produtos da Murta envolve vários critérios, desde os materiais e embalagens até à origem e ao processo de fabrico.

Teresa Silva: Que critérios utilizam para selecionar os produtos que chegam à loja?

Cláudia Almeida: Antes de serem adicionados ao catálogo da Loja todos os produtos são analisados quanto à sua composição, embalagem, tipologia e proveniência de fabrico.

É sempre dada prioridade a ingredientes ou materiais naturais, biodegradáveis, compostáveis e reutilizáveis ou, na sua ausência ou por questões de usabilidade, a materiais recicláveis.

Sobre o fabrico a preferência é sempre o nacional e artesanal, pois em pequena escala existe uma menor pegada e uma maior preocupação com o impacto da produção. No caso dos fabricantes de maior dimensão, apenas escolhemos produtos que apresentam certificação e/ou verdadeira vantagem ambiental e económica associada ao seu uso.

Todos os critérios são analisados em simultâneo e estudados os prós e contras da sua introdução no catálogo. Adicionalmente os fornecedores e todos os produtos são analisados, pelo menos uma vez por ano, para verificar que ainda mantêm as práticas e os mesmos critérios que nos levaram a adicioná-los à Loja.


Teresa Silva: Como garante que as marcas com quem trabalha partilham realmente os mesmos valores?

Cláudia Almeida: A preocupação com a sustentabilidade está presente desde a raiz, na grande maioria dos nossos parceiros.

Trabalhamos em conjunto para os mesmos objetivos: estimular a economia nacional, principalmente de pequenos negócios, sempre com o máximo respeito pelo meio ambiente.

Adicionalmente existe uma comunicação constante com os parceiros. Se verificarmos que a marca se encaminha para um caminho que não é o da Murta ou que, de alguma forma, alterou o seu curso, o nosso caminho juntos termina nesse momento. Já aconteceu.

Um dos parceiros com os quais começamos este projeto direcionou-se para o mercado de luxo, e assim que nos apercebemos dessa mudança, terminamos a parceria.

Não temos nada contra esse segmento de mercado, apenas não corresponde à nossa missão como empresa.


Consumidores e sustentabilidade

Informação e confiança são fundamentais quando falamos de consumo sustentável, sobretudo num negócio que funciona online.

Teresa Silva: Sente que os consumidores estão hoje mais informados ou ainda existe muito trabalho de sensibilização?

Cláudia Almeida: Ambos. Os consumidores estão mais informados, o que é muito positivo, mas tal não significa que saibam tudo, que compreendam verdadeiramente tudo, e que não tragam consigo preconceitos de outros produtos semelhantes que experimentaram.

É por isso que nas descrições dos produtos da Loja e nas partilhas do Blog, fazemos questão de incluir todas as informações atualizadas e o mais descritivas possível.

O mesmo se aplica com os vídeos que criamos para as redes sociais, de modo a dar a conhecer a perspetiva de utilização dos produtos e desmistificar ideias preconcebidas.

Imagem com citação de Cláudia Almeida, Gerente na Murta Atitude Natural. Do lado esquerdo, sobre fundo branco com aspas grandes em tom coral, lê-se o texto: "Não devemos dizer que não funciona, ou que não é bom ou não serve sem experimentar." Em baixo encontram-se o seu nome e cargo. Do lado direito, dentro de uma moldura circular, vê-se a Cláudia Almeida com cabelo comprido e blusa azul, ligeiramente inclinada e a olhar para baixo.

Teresa Silva: Quais são as dúvidas ou receios mais frequentes de quem entra pela primeira vez na Murta?

Cláudia Almeida: Como em qualquer outra loja presente unicamente online, os principais receios deparam-se com o processo de compra em si e se a encomenda vai de facto ser entregue.

É necessário criar uma ligação com o cliente que se torna mais distante com as compras neste formato não presencial.

Todo o processo de encomenda na Loja é automatizado, ou seja, o cliente recebe sempre notificações a cada passo concretizado. No entanto, com as fraudes digitais a aumentar, é apenas natural que os clientes fiquem preocupados e ansiosos com o investimento do seu dinheiro.

Para colmatar esta situação estamos sempre disponíveis das 9h às 19h, dias úteis, sábados e domingos, para esclarecer qualquer dúvida que tenha surgido com os produtos, a plataforma, o processo de encomenda ou mesmo o de envio.

Desta forma acreditamos conseguir reduzir um pouco a distância entre loja-cliente e criar uma relação de presença e confiança.


Os desafios de gerir um negócio sustentável em Portugal

Mesmo com uma preocupação constante em reduzir o impacto ambiental, existem áreas que dependem de fatores externos.

Teresa Silva: Quais são os maiores desafios de gerir um negócio sustentável em Portugal?

Cláudia Almeida: Gerir um negócio sustentável online é complexo, pois envolve algumas variáveis que não conseguimos bem controlar, apenas colmatar o melhor possível.

Podemos usar o exemplo dos envios. Para que as encomendas cheguem ao cliente, é necessário que a transportadora os entregue, o que implica uma pegada ecológica associada à distribuição.

Para este serviço escolhemos desde o início os CTT Expresso, pois consideramos ser a empresa com a rede mais bem estabelecida no país e, consequentemente, com as rotas mais otimizadas, poupando-se assim deslocações individualizadas.

Como todos os negócios, a mudança está nos detalhes. O principal exemplo pode ser o do embalamento, que é totalmente reutilizado. Atualmente não fazemos qualquer compra de enchimento ou caixas, reutilizamos totalmente o que enviam para nós, para reenviar para o cliente, sempre que se encontre nas condições adequadas.


Greenwashing e transparência

Com consumidores mais atentos, as empresas enfrentam também maiores exigências relativamente à forma como comunicam as suas práticas ambientais.

Teresa Silva: Sente que as empresas estão realmente a mudar ou ainda existe muito "greenwashing"?

Cláudia Almeida: As empresas estão a mudar, mas existe também cada vez mais greenwashing, pois o consumidor também mudou.

O consumidor está mais exigente e mais atento e isso provoca mudança nas empresas, contudo existem sempre as marcas que optam por tentar enganar o consumidor com uma imagem de sustentabilidade quando, na verdade, não é isso que se passa, é apenas marketing.

Neste tema considero verdadeiramente que os consumidores devem queixar-se às entidades competentes quando se apercebem de que foram enganados, e essas mesmas entidades devem estar mais atentas à comunicação utilizada por essas marcas.

Na Murta não somos perfeitos, mas não colocamos em prática nenhuma campanha com o objetivo de fazer as pessoas comprar um artigo por algo que ele não é.

Comunicamos claramente o que o artigo é, de que é feito, como funciona, de onde vem e como se reutiliza ou descarta no seu fim de vida. Apostamos na transparência total, pois acreditamos que apenas assim se consegue uma relação de confiança com o cliente.

Infográfico com uma citação de Cláudia Almeida, Gerente na Murta Atitude Natural. No lado esquerdo, sobre um fundo branco com grandes aspas decorativas em tom de coral, lê-se o texto: "Pode parecer que pequenos passos não têm impacto, mas têm. Todas as decisões importam." Por baixo, o nome e o cargo. No lado direito, dentro de uma moldura circular, vê-se um retrato de Cláudia Almeida, com cabelo comprido e uma blusa vermelha, olhando para a câmara. O cabelo e o rosto estão iluminados com riscas de luz solar.

 O futuro do consumo sustentável

Para a Cláudia, o futuro passa por um consumo mais consciente, realista e próximo da produção local.

Teresa Silva: Como imagina o consumo sustentável daqui a dez anos?

Cláudia Almeida: Imagino um consumo consciente, ou seja, um consumo realista, adequado às verdadeiras necessidades de cada um e de cada família, e não adequado às expectativas criadas e impostas por uma sociedade voltada para o lucro.

Imagino que este consumo consciente não seja apenas refletido na quantidade e no que compramos, mas também a quem compramos, sendo dada uma clara preferência pelo consumo local e nacional.

Se aos poucos todos formos reduzindo o que compramos desnecessariamente, tendo atenção verdadeira ao que trazemos connosco, reduzindo poluentes, químicos e artigos que não têm destino óbvio a não ser o aterro, acredito que este consumo pode tornar-se real.


Teresa Silva: O que gostaria que mudasse na forma como consumimos?

Claudia Almeida: Gostaria que todos tivessem a coragem e a disponibilidade para experimentar.

Não devemos dizer que não funciona, ou que não é bom ou não serve sem experimentar. E isto aplica-se claramente ao consumo.

Lá porque compramos e consumimos toda a vida daquela marca, não quer dizer que outras não sejam funcionais da mesma forma, ou até melhores.

Se tomarmos a iniciativa de experimentar uma marca nacional sustentável, dando verdadeiramente tempo para avaliar se funciona ou não, estamos a ganhar experiência de utilização, a impulsionar pequenos negócios e a começar a transformar a nossa rotina, para melhor.

Com o impulsionar dos pequenos negócios e artesãos, contribuímos para melhorar a economia nacional e para que conhecimentos únicos, e por vezes geracionais, não fiquem esquecidos no tempo.


Como começar a viver de forma mais sustentável?

A mudança não precisa de acontecer de um dia para o outro. Começar devagar pode ser a melhor forma de criar hábitos duradouros.

Teresa Silva: Se pudessem deixar apenas uma mensagem a quem quer começar a viver de forma mais sustentável, qual seria?

Cláudia Almeida: Comecem aos poucos. Não pretendam mudar toda a rotina de uma só vez ou sem preparação, ou vão acabar por desistir sem concluir a missão.

A mudança é sempre possível e pode ser simples, mas deve ser levada com calma, por passos.

Desta forma é dado o devido tempo para que as rotinas assentem e se integrem verdadeiramente no dia-a-dia. Assim que tal acontecer, então adicionem uma nova prática.

Pode parecer que pequenos passos não têm impacto, mas têm. Todas as decisões importam, pois têm efeito cumulativo, acumulam-se umas às outras e com as restantes decisões de todos os que percorrem este mesmo planeta que nós.

E quando, juntos, nos dedicamos a uma missão, conseguimos alcançá-la.


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Pequenas escolhas podem gerar grandes mudanças

Ao longo da entrevista, Cláudia Almeida reforça uma ideia essencial: viver de forma mais sustentável não significa mudar tudo de uma vez.

A sustentabilidade pode começar com pequenas escolhas, com a vontade de experimentar alternativas, com a procura de informação e com uma maior atenção ao que compramos.

A história da Murta demonstra também como uma necessidade pessoal pode transformar-se num projeto dedicado a promover produtos sustentáveis, apoiar pequenos negócios e incentivar um consumo mais consciente.

Como resume a Cláudia: “todas as decisões importam”. E são precisamente essas pequenas decisões, acumuladas ao longo do tempo, que podem contribuir para uma mudança maior.

Conheçam mais dicas de sustentabilidade no blog da Murta, e façam as vossas compras conscientes no site.

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